A Bahia chega ao Dia Internacional da Pessoa Idosa, celebrado nesta quinta-feira (01/10/2026), com 2,464 milhões de pessoas de 60 anos ou mais, equivalentes a 16,6% da população estadual, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) de 2025 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O contingente, que representava apenas 5,0% dos baianos em 1970, deverá alcançar 5,171 milhões de pessoas em 2070, quando 40,3% dos habitantes do estado estarão nessa faixa etária. Paralelamente, os idosos ampliaram sua participação na chefia dos domicílios, na renda familiar e no mercado de trabalho, embora 70,0% dos ocupados com 60 anos ou mais estejam na informalidade.
O processo integra uma mudança estrutural da demografia brasileira. O próprio IBGE relaciona a maior presença de pessoas idosas à combinação entre aumento da longevidade e redução da natalidade, fenômenos que alteram progressivamente a composição etária e ampliam o peso relativo das faixas mais velhas da população.
No Brasil, a legislação considera pessoa idosa aquela com 60 anos ou mais. O critério está previsto na Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, atual Estatuto da Pessoa Idosa, que estabelece direitos específicos e determina prioridade à proteção da vida, saúde, alimentação, educação, cultura, trabalho, cidadania, dignidade e convivência familiar e comunitária.
Participação dos idosos na população mais que triplica desde 1970
A transformação demográfica aparece de forma contínua nos censos. Em 1970, a Bahia tinha 373,9 mil pessoas com 60 anos ou mais, correspondentes a 5,0% da população. Dez anos depois, eram 575,7 mil, ou 6,1%. Em 1991, o contingente chegou a 816,9 mil pessoas, representando 6,9% dos habitantes.
A marca de 1 milhão de idosos foi ultrapassada no Censo 2000, quando o estado contabilizou 1,080 milhão, ou 8,3% dos moradores. Em 2010, o número avançou para 1,450 milhão, equivalente a 10,3% da população — aproximadamente uma em cada dez pessoas.
No Censo 2022, já havia 2,159 milhões de baianos com 60 anos ou mais, correspondentes a 15,3% dos moradores. Pela PNADC, o contingente alcançou 2,464 milhões em 2025, ou 16,6% da população estadual. Essa participação era a oitava maior entre as unidades da Federação e idêntica à média brasileira registrada pelo levantamento.
Outro indicador confirma a alteração da pirâmide etária. Entre 2010 e 2022, a idade mediana da população da Bahia subiu de 28 para 35 anos, enquanto o índice de envelhecimento — número de pessoas com 60 anos ou mais para cada grupo de 100 crianças de até 14 anos — avançou de 40,4 para 75,4.
Bahia pode ter quatro idosos a cada dez habitantes em 2070
As Projeções da População do IBGE apontam que o processo deverá se aprofundar nas próximas décadas. Em 2070, a Bahia poderá ter 5,171 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, representando 40,3% de toda a população estadual.
Nesse cenário, aproximadamente quatro em cada dez moradores estarão na faixa etária considerada idosa pela legislação brasileira.
A participação projetada deixaria a Bahia como o segundo estado proporcionalmente mais envelhecido do país, abaixo apenas do Distrito Federal, com 40,4%, e acima da projeção nacional de 37,8%.
As projeções demográficas são produzidas pelo IBGE a partir do método das componentes demográficas, que considera a evolução da fecundidade, mortalidade e migração. A revisão atualmente utilizada incorpora dados do Censo 2022, registros de nascimentos e óbitos e outras informações demográficas e cobre o período até 2070.
Por essa razão, os números de 2070 não constituem uma contagem antecipada, mas uma projeção baseada nas tendências e hipóteses demográficas disponíveis. O próprio instituto prevê revisões periódicas quando novas informações alteram as perspectivas de fecundidade, mortalidade ou migração.
Envelhecimento muda a estrutura dos domicílios baianos
O crescimento da população idosa também aparece na organização econômica das famílias. No Censo 2022, 64,5% das pessoas com 60 anos ou mais na Bahia eram responsáveis pelos domicílios onde viviam, totalizando 1,392 milhão de idosos chefes de residência.
O grupo respondia pela chefia de 27,3% dos lares baianos, proporção próxima à brasileira, de 27,2%, e a oitava maior entre os estados. Isso significa que mais de um quarto dos domicílios da Bahia tinha uma pessoa idosa como responsável.
Esse indicador amplia a dimensão econômica do envelhecimento. A transformação não se restringe, portanto, às demandas por saúde ou proteção social: interfere diretamente na manutenção financeira das famílias, na organização dos domicílios, no consumo, nas transferências previdenciárias e no funcionamento do mercado de trabalho.
Mais de meio milhão de idosos continuam trabalhando na Bahia
No segundo trimestre de 2026, 567 mil pessoas com 60 anos ou mais estavam ocupadas na Bahia, o equivalente a 23,4% da população idosa estadual.
A permanência no mercado de trabalho, contudo, ocorre predominantemente em condições informais. Entre os idosos ocupados, 397 mil — 70,0% — trabalhavam na informalidade.
O dado cria uma diferença importante entre presença econômica e proteção trabalhista. A continuidade da atividade profissional pode resultar tanto de escolhas individuais e maior longevidade produtiva quanto da necessidade de complementar a renda. O levantamento apresentado pelo IBGE, porém, não permite atribuir uma causa única ao fenômeno.
Rendimento dos trabalhadores idosos supera média estadual
Apesar da elevada informalidade, o rendimento médio dos trabalhadores mais velhos é superior ao conjunto dos ocupados baianos.
No período analisado, as pessoas de 60 anos ou mais que trabalhavam no estado recebiam rendimento habitual médio de R$ 2.746 mensais, valor 7,1% superior à média de R$ 2.563 registrada entre todos os trabalhadores.
A diferença pode estar associada a fatores como trajetória profissional acumulada, perfil ocupacional e permanência seletiva no mercado de pessoas com maior experiência ou rendimento, mas o documento divulgado pelo IBGE não identifica isoladamente quais fatores explicam essa diferença.
O dado, portanto, demonstra uma associação estatística entre idade e rendimento médio dos ocupados naquele período, sem permitir concluir que o avanço da idade, por si só, seja responsável pela remuneração superior.
Aposentadorias e pensões respondem por quase 20% da renda domiciliar
A importância econômica da população mais velha aparece também nas transferências previdenciárias.
Em 2025, aposentadorias e pensões representaram 19,8% do rendimento médio mensal dos domicílios baianos, equivalentes a R$ 428 de uma renda domiciliar média de R$ 2.162. Eram a segunda fonte mais importante de renda considerada pelo IBGE.
A participação superava a média brasileira, de 16,4%, e colocava a Bahia na sétima posição entre os 27 estados em peso relativo desses rendimentos.
O indicador ajuda a explicar por que o envelhecimento possui repercussões que ultrapassam a política previdenciária. Em milhares de famílias, aposentadorias e pensões integram diretamente a renda utilizada para moradia, alimentação, saúde, transporte e outras despesas correntes.
Mudança demográfica pressiona políticas públicas e planejamento econômico
A alteração da estrutura etária cria uma mudança gradual na composição da demanda por serviços públicos e privados. Saúde, assistência social, previdência, mobilidade, habitação, acessibilidade e políticas de trabalho tendem a enfrentar uma participação crescente da população com 60 anos ou mais.
Os próprios levantamentos demográficos do IBGE são utilizados como referência para planejamento e monitoramento de políticas públicas e decisões de investimento. O instituto destaca que as informações de idade e sexo fornecem subsídios para áreas como saúde, Previdência Social e mercado de trabalho.
Ao mesmo tempo, o envelhecimento ocorre em contexto de redução progressiva das faixas etárias mais jovens. Esse movimento altera a relação entre população economicamente ativa, dependência previdenciária, disponibilidade futura de trabalhadores e necessidade de serviços especializados.
O fenômeno é conhecido como transição demográfica: à medida que as sociedades passam por redução da mortalidade e, posteriormente, queda da fecundidade, a estrutura etária deixa de ser predominantemente jovem e passa a apresentar participação crescente de adultos mais velhos e idosos.
Estatuto define proteção específica às pessoas com 60 anos ou mais
No plano jurídico, o Estatuto da Pessoa Idosa estabelece o marco nacional de proteção a quem possui 60 anos ou mais. A legislação determina que família, comunidade, sociedade e poder público assegurem, com prioridade, direitos fundamentais dessa população.
Em 22 de julho de 2022, a Lei nº 14.423 modificou a terminologia da legislação, substituindo as expressões “idoso” e “idosos” por “pessoa idosa” e “pessoas idosas” ao longo do Estatuto.
A definição brasileira também explica por que alguns números nacionais podem divergir de comparações internacionais. O IBGE utiliza o corte de 60 anos quando trata especificamente da população protegida pelo Estatuto, embora indicadores internacionais também possam adotar 65 anos ou mais para comparabilidade demográfica. O instituto já esclareceu formalmente essa diferença metodológica.
Dia Internacional foi instituído pela ONU em 1990
O Dia Internacional da Pessoa Idosa, celebrado em 1º de outubro, foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 14 de dezembro de 1990, por meio da Resolução 45/106. A comemoração integra uma trajetória internacional de discussão sobre envelhecimento populacional.
Entre os antecedentes estão o Plano Internacional de Ação sobre o Envelhecimento de Viena, aprovado em 1982, os Princípios das Nações Unidas para as Pessoas Idosas, adotados em 1991, e o Plano Internacional de Ação sobre Envelhecimento de Madri, aprovado em 2002.
A agenda internacional passou progressivamente de uma abordagem concentrada apenas em proteção social para um debate mais amplo sobre autonomia, participação econômica, saúde, inclusão, direitos e organização das sociedades diante do crescimento da longevidade.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 1970 — A Bahia tinha 373,9 mil pessoas com 60 anos ou mais, equivalentes a 5,0% da população. O dado estabelece a referência histórica para o avanço posterior do envelhecimento.
- 1980 — O contingente idoso chegou a 575,7 mil pessoas, ou 6,1% dos moradores do estado.
- 1990 — A Assembleia Geral da ONU instituiu 1º de outubro como Dia Internacional da Pessoa Idosa, por meio da Resolução 45/106.
- 1991 — A população baiana com 60 anos ou mais alcançou 816,9 mil pessoas, representando 6,9% do total.
- 2000 — Pela primeira vez, a Bahia ultrapassou 1 milhão de idosos, com 1,080 milhão, ou 8,3% da população.
- 01/10/2003 — Foi sancionada a Lei nº 10.741, que criou o Estatuto destinado a assegurar direitos às pessoas com 60 anos ou mais.
- 2010 — A população idosa baiana alcançou 1,450 milhão, correspondendo a 10,3% dos moradores.
- 22/07/2022 — A Lei nº 14.423 alterou a nomenclatura legal para Estatuto da Pessoa Idosa e substituiu a terminologia utilizada na norma.
- 2022 — O Censo registrou 2,159 milhões de pessoas com 60 anos ou mais na Bahia, ou 15,3% da população. No mesmo levantamento, 64,5% dos idosos eram responsáveis por seus domicílios, e 27,3% dos lares baianos tinham chefia idosa.
- 2025 — A PNADC estimou 2,464 milhões de idosos, equivalentes a 16,6% dos habitantes da Bahia. Aposentadorias e pensões responderam por 19,8% da renda média domiciliar no estado.
- 2º trimestre de 2026 — A Bahia tinha 567 mil trabalhadores com 60 anos ou mais, correspondentes a 23,4% da população idosa; 397 mil deles, ou 70,0%, estavam na informalidade. O rendimento médio do grupo era de R$ 2.746.
- 01/10/2026 — O Dia Internacional da Pessoa Idosa é marcado na Bahia pela divulgação de indicadores que demonstram a crescente dimensão demográfica e econômica dessa população.
- 2070 — As projeções do IBGE indicam 5,171 milhões de pessoas com 60 anos ou mais na Bahia, equivalentes a 40,3% da população, o que poderá tornar o estado o segundo proporcionalmente mais envelhecido do país.
Os indicadores mostram que o envelhecimento da Bahia deixou de ser uma tendência de longo prazo para se tornar uma transformação demográfica em andamento. Em pouco mais de cinco décadas, a participação das pessoas com 60 anos ou mais passou de 5,0% para 16,6%, ao mesmo tempo em que cresceu sua influência sobre renda, organização familiar e mercado de trabalho. Trata-se de uma alteração estrutural porque modifica simultaneamente o perfil de quem demanda serviços públicos, quem produz renda e quem sustenta parte significativa dos domicílios.
Os dados também revelam uma aparente tensão entre importância econômica e vulnerabilidade ocupacional. Embora o rendimento médio dos trabalhadores idosos supere o conjunto dos ocupados, 70,0% deles estão na informalidade. A estatística impede uma leitura simplificadora: envelhecimento não significa necessariamente dependência econômica, assim como permanência no trabalho não significa, isoladamente, autonomia financeira ou escolha voluntária. Identificar os fatores que levam quase 600 mil baianos idosos a permanecer em atividade exige informações adicionais sobre ocupação, renda previdenciária, escolaridade, jornada e condições de trabalho.
As projeções para 2070 precisam igualmente ser tratadas com rigor metodológico. Os 40,3% representam um cenário calculado a partir das tendências demográficas observadas e das hipóteses sobre fecundidade, mortalidade e migração, não um resultado previamente determinado. Ainda assim, a escala projetada estabelece um parâmetro relevante para decisões atuais: hospitais, atenção básica, previdência, transporte, habitação, planejamento urbano, assistência social e mercado de trabalho possuem ciclos de investimento que frequentemente se estendem por décadas.
O núcleo factual é inequívoco: a Bahia possui hoje milhões de pessoas idosas, mais de um quarto dos domicílios já tem chefia de alguém nessa faixa etária, aposentadorias e pensões têm peso relevante na renda familiar e centenas de milhares de idosos continuam trabalhando. O acompanhamento dos próximos anos deverá verificar se União, Estado, municípios, sistema previdenciário, rede de saúde, setor produtivo e instituições de proteção social adaptarão políticas, serviços e estruturas econômicas ao ritmo indicado pelos dados demográficos.


